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Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.

queijoA escritora mineira Adélia Prado afirma: “Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.

E Rubem Alves, explica: “O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…”

Isso tem tudo a ver com educação. O verdadeiro educador não é um mero transmissor de conhecimentos, mas alguém que sabe instigar no educando a fome de saber, a vontade de conhecer mais e mais. De que adianta querer dizer algo para alguém que não está interessado nesse algo?  É necessário despertar a curiosidade, atiçar a fome do educando. E como fazer isso? Um cara das antigas chamado Sócrates estabeleceu um método revolucionário para tal questão: ele chamou esse método de maiêutica ou parto intelectual. Dizia Sócrates que as pessoas são capazes de buscar as respostas de forma autônoma se forem questionadas devidamente. A pergunta é base do método socrático. Sim, devemos questionar, criar pontos de interrogação em nós mesmos e nos educandos. Isso é gerar a fome. E depois disso, partimos para as descobertas. Alguém pode dizer que esse processo é muito moroso. Eu diria que é lento, mas efetivo. Ao procurar as respostas, normalmente aprendemos muito mais do que o que estava dito na pergunta. E ainda ficamos preparados para o momento em que não teremos ninguém por perto para nos auxiliar mais diretamente, ou seja, aprendemos a pensar autonomamente. Eu também creio que o método “transmissivo”, no fim das contas, termina sendo ainda muito mais lento, pois exige muitas repetições e ainda termina por cair no esquecimento depois de pouco tempo, tendo em vista que não foi objeto de experimentação por parte do educando, mas de um mero “palavriado” por parte do “educador”.

Os professores normalmente chegam e vão falando e dando respostas a perguntas que não foram feitas. Muito do que é dito não é objeto de curiosidade ou necessidade do educando naquele dado momento. Então por que não invertemos a ordem das coisas? Por que não começar pelas perguntas? Eis o desafio. Iniciar pelo problema, pela dúvida, pelo objeto de curiosidade do educando. E ao refletir sobre como por em prática isso tudo, uma nova pergunta surge: “A dúvida de um, não é a dúvida do outro. E aí? Como fazer para atender a questionamentos indivivuais num ambiente coletivo?” Espero falar mais sobre isso em outro post, mas resumidamente a resposta está em estabelecer trabalhos e metas individuais ou em pequenas equipes com interesses comuns. Em outras palavras, não trabalhar de forma massificada, mas individualizada.

Um único professor falando a mesma coisa para 40 alunos  que têm interesses distintos é um desperdício! É dar queijo e faca para muitos que não estão com a mínima fome ou mesmo vontade de comer. Eu mesmo tenho agido assim e sei que preciso mudar. Refletindo sobre isso, pretendo efetivamente aprender a instigar a fome dos educandos. É uma árdua tarefa que pretendo abraçar. Não há receita pronta, nem mágica, mas um trabalho árduo, persistente e amoroso que deve ser empreendido para tocar o coração e a mente de cada educando individualmente. Sei que tal mudança não ocorre do dia para noite, mas ao longo de um período de muita maturação e experimentação contínua.

Para finalizar, algumas palavras do Rubem Alves que sintetizam nossas reflexões: “(… ) se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.”

Indicações de leitura:

Categorias:Educação Tags:
  1. Robson
    28/05/2016 às 13:50

    Muito interessante seu texto. Eu tenho um penamento similar. Gostaria de saber se você realmente aplicou esse método e qual foram seus resultados.

    • regispires
      29/05/2016 às 12:20

      Oi, Robson. Tenho tentado na medida do possível. Os interesses são muito diversos, mas temos conseguido alguns bons resultados.

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